A Química e a Tecnologia Química constituem um dos pilares fundamentais da civilização. Estão presentes em praticamente todos os aspetos da vida quotidiana, desde os alimentos que consumimos, aos medicamentos que tomamos, aos materiais que utilizamos e às tecnologias que nos rodeiam. Neste sentido, é impossível conceber a sociedade sem a intervenção da Química, quer na produção de bens essenciais, quer no desenvolvimento científico e tecnológico que sustenta o progresso humano.
Tal como foi referido na palestra do Professor João Paulo Leal, “Química e Sociedade: ligações perigosas?”, tudo a nossa volta é constituído por substâncias químicas, incluindo o próprio corpo humano. Esta afirmação é particularmente importante porque desmonta uma percepção comum na sociedade: a ideia de que a Química é algo artificial, perigoso ou negativo por natureza. Pelo contrário a Química não é boa, nem má, ela é uma ciência que descreve e transforma a matéria, sendo o uso que dela fazemos que determina os seus impactos.
No entanto, apesar dos seus contributos decisivos para o aumento da qualidade de vida, da esperança média de vida e do desenvolvimento tecnológico, a Química é frequentemente associada a uma imagem negativa. Nos meios de comunicação social e em campanhas publicitárias recentes de grandes marcas como o Pingo Doce, o Lidl e o Continente, verifica-se uma tendência para reforçar a ideia de “químico” como algo artificial ou potencialmente prejudicial. Embora algumas destas campanhas tenham uma componente humorística, acabam por contribuir pouco para a literacia científica e para uma compreensão mais correta da Química na sociedade.
Na realidade, muitos dos avanços mais importantes da humanidade dependem diretamente da Química. Na área da saúde, por exemplo: o desenvolvimento de medicamentos como antibióticos, analgésicos e vacinas permitiu controlar doenças que anteriormente eram fatais. Na alimentação, a utilização de fertilizantes, conservantes e técnicas de processamento aumentou significativamente a produção agrícola e a segurança alimentar, permitindo alimentar a população mundial em crescimento.
Contudo, estes benefícios não podem ser analisados de forma isolada, sem considerar os seus impactos ambientais e sociais. A poluição dos oceanos, a contaminação dos solos e da água, e as alterações climáticas são em parte consequência do uso intensivo de produtos químicos e de modelos industriais pouco sustentáveis. A Química surge também associada a desafios globais que exigem soluções urgentes e inovadoras.
É neste ponto que a Química se torna parte da solução. Como foi destacado pelo Professor João Paulo Leal na sua palestra, a investigação química atual está fortemente orientada para a sustentabilidade. Exemplos disso incluem o desenvolvimento de processos de reciclagem de materiais críticos, como terras raras, a criação de combustíveis mais limpos, o aproveitamento de resíduos industriais e o desenvolvimento de materiais mais sustentáveis e eficientes do ponto de vista energético.
Um exemplo concreto é o avanço na química dos materiais e na ciência dos polímeros, que permite criar soluções como superfícies antimicrobianas, embalagens biodegradáveis ou sistemas de purificação de água mais eficientes. Outro exemplo relevante é o desenvolvimento de baterias mais sustentáveis e de tecnologias de armazenamento de energia, essenciais para a transição energética e para a redução das emissões de gases com efeito de estufa.
Neste contexto, a Química não deve ser vista apenas como uma fonte de problemas ambientais, mas também como uma ferramenta essencial para os resolver. No entanto isso exige responsabilidade científica, regulamentação adequada e uma maior consciência social sobre o papel desta ciência.
Em síntese, a Química está profundamente ligada à vida humana, a saúde, ao desenvolvimento tecnológico e a sustentabilidade do planeta. O desafio não é rejeitar a Química, mas sim compreender o seu funcionamento e utilizá-la de forma responsável e informada. Tal como foi sublinhado na palestra do Professor João Paulo Leal, "a ligação mais perigosa não é a que temos com a Química, mas sim a falta de compreensão sobre o seu papel central na sociedade".
Assim, a literacia científica torna-se essencial para que possamos avaliar criticamente os benefícios e os riscos da Química, e para que possamos participar de forma consciente nas decisões que influenciam o futuro do planeta.
Referências bibliográficas
-Brundtland, G. H. (1987). Report of the World Commission on Environment and Development: Our Common Future. United Nations.
-Leal, J. P. (2026). Química e Sociedade: ligações perigosas? Palestra proferida no âmbito da unidade curricular (Universidade de Évora).
-“Química e Sociedade”. (2011). Diário do Sul.
-“Química nas nossas vidas”. (2011). Ciência Hoje.
-UNESCO. (2011). Chemistry and Life. The UNESCO Courier, January–March 2011.
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