A Química vista por ... Débora Pereira Estudante da Pós-graduação em Ambiente, Sustentabilidade e Educação da Universidade de Évora 25/26

 

Créditos da imagem: https://www.magnific.com/ 

A química, enquanto ciência, não possui vantagens nem desvantagens em si mesma; essa dicotomia é, na verdade, uma projeção humana sobre os seus resultados. A química estuda, analisa, processa, descobre, relaciona e cria conhecimento. É uma ferramenta de compreensão do mundo natural, neutra na sua essência. O que dela resulta pode, isso sim, ser interpretado como positivo ou negativo, dependendo do contexto social, político e económico em que é aplicado.

Um exemplo claro é o uso de herbicidas e pesticidas. Frequentemente associados a impactos ambientais e riscos para a saúde, são vistos como prejudiciais. Em contraste, a agricultura biológica é promovida como a solução ideal para uma alimentação saudável. No entanto, o desenvolvimento de herbicidas permitiu aumentar significativamente a produção agrícola, a preços sustentáveis, contribuindo para alimentar uma população mundial em crescimento. A avaliação do seu impacto não é, portanto, linear.

Outro exemplo é o dos plásticos. São amplamente criticados pela poluição que geram, mas tiveram um papel crucial na conservação de alimentos, na medicina (como em seringas e equipamentos esterilizados) e na redução de custos em diversos setores. Da mesma forma, os combustíveis fósseis são apontados como responsáveis pelas alterações climáticas, mas foram fundamentais para o desenvolvimento industrial e tecnológico.

Assim, a química não é boa nem má. Ela fornece possibilidades. Cabe às sociedades humanas decidir como utilizar esse conhecimento, equilibrando benefícios e riscos de forma consciente e informada.

E a bioquímica? Já pensámos sobre a sua relevância?

“A Bioquímica pode ser definida como a base química da vida, a célula é a unidade estrutural dos sistemas vivos, também pode ser descrita como uma ciência preocupada com os constituintes químicos das células vivas e com as reações e processos que lá ocorrem.” - https://fenix.esesjcluny.pt/dspace/bitstream/2295/6541/1/Sebenta%20-%20Bioqumica%20Geral%20-%20ESESJC%20-%202011-2012.pdf

Aqui são estudados o metabolismo (reações que produzem energia), a replicação do DNA , a comunicação entre células, etc. Não parece relevante? Tem desvantagens?

Talvez tenha descobertas menos “felizes”, mas é isso uma desvantagem?

Não. É conhecimento.

:::::::::::

Há uma máxima mediática recente: o problema não é a energia nuclear, que é até bastante sustentável. O problema é quem a usa e com que propósito.

Talvez a nossa utilização dos materiais ou das descobertas é que não seja a melhor, e com isso contaminamos a imagem que se tem da química em si. Culpamos o mensageiro, quando:

- é o Homem que entope os oceanos de plástico,

- é o Homem que enche aterros de roupas não utilizadas por uma questão de lucro,

- é o Homem que não adota uma dieta variada.

“A má imagem da Química resulta da sua má utilização e deve-se particularmente à dispersão de resíduos no ambiente (…)”

https://www.moodle.uevora.pt/2526/pluginfile.php/96666/mod_resource/content/1/A_Quimica_nas_nossas_vidas.pdf

:::::::::::::::::::::::::::::::::

Na palestra do professor João Paulo Leal, ele menciona como uma das funções da química, ou das suas prioridades atuais, a reutilização de terras raras, a constituição de combustível verde, e outras soluções que a nossa sociedade aguarda milagrosa e avidamente. E isto surge porque efetivamente há problemas sociais a resolver e a Química está também desperta a isso.

:::::::::::::::::::::::::::::::::

Essa ideia encaixa-se de forma particularmente clara no setor farmacêutico. A Química permite identificar e sintetizar um número vastíssimo de compostos possíveis, mas, na prática, apenas uma fração muito pequena é efetivamente estudada em detalhe — e uma fração ainda menor chega a ser testada como potencial medicamento. Isso significa que o universo de potencialidades terapêuticas é, em grande parte, ainda desconhecida.

Na indústria farmacêutica, essa limitação não é uma falha, mas uma condição inevitável do próprio processo científico. O desenvolvimento de um fármaco implica etapas rigorosas, e multidisciplinares, de descoberta, teste e validação. Ainda assim, o conhecimento gerado é sempre provisório: novos dados levam à reformulação de hipóteses, à melhoria de medicamentos existentes ou até à sua retirada do mercado.

·         https://www.deco.proteste.pt/saude/beleza-cuidados-pessoais/noticias/tpo-proibido-gel-gelinho-unhas

·         https://expresso.pt/economia/2022-08-12-A-partir-de-2023-acabou-se-o-po-talco-da-Johnson--Johnson-65773ab3

Exemplos disso são frequentes: substâncias inicialmente consideradas seguras podem revelar efeitos secundários a longo prazo, enquanto compostos descartados podem mais tarde mostrar utilidade em novos contextos terapêuticos. O próprio avanço tecnológico permite revisitar e reinterpretar conhecimentos anteriores.

Eu diria que o verdadeiro problema não reside na natureza provisória do conhecimento, mas na sua negação. Quando se ignora que a Ciência está em constante evolução, corre-se o risco de cristalizar ideias desatualizadas e limitar o progresso. A ausência de investigação contínua fragiliza setores (e sociedades), reduzindo a capacidade de detetar riscos, melhorar aplicações e descobrir novas soluções. Mais do que os erros do passado, preocupa-me a recusa em questionar, rever e aprofundar conhecimento e o seu impacto positivo global.

 


Sem comentários:

Enviar um comentário