A Química vista por ... Carla Neto Estudante da Pós-graduação em Ambiente, Sustentabilidade e Educação da Universidade de Évora 25/26

Hoje basta um produto dizer “sem químicos” para parecer automaticamente melhor. E isso sempre me fez alguma confusão. Como se a Química fosse uma espécie de inimigo invisível que aparece apenas para contaminar aquilo que é supostamente “natural”. Mas a realidade é bem menos simples do que isso. Tudo à nossa volta é química. A água, o ar, os alimentos, os materiais, o próprio corpo humano. Ainda assim, continuamos a usar a palavra “químico” quase como um aviso.

Talvez por trabalhar na área do Ambiente e da construção civil tenha uma perceção um bocadinho diferente desta questão. No meu dia a dia, a Química aparece constantemente, mesmo quando ninguém pensa nela. Está nos materiais utilizados em obra, nos isolamentos, nas tintas, nos combustíveis, nos resíduos, nas análises laboratoriais, no tratamento de águas e até nos processos usados para reduzir impactos ambientais.

E é curioso perceber que muitas das soluções associadas hoje à sustentabilidade dependem precisamente daquilo que tantas vezes é visto com desconfiança. Fala-se muito em eficiência energética, em materiais mais sustentáveis, em reutilização de resíduos ou em descontaminação ambiental, mas grande parte desses avanços só existe graças ao desenvolvimento químico e tecnológico.

Ao mesmo tempo, também seria absurdo ignorar os impactos negativos associados a esta realidade. Basta olhar para a história da industrialização para perceber isso. Solos contaminados, rios poluídos, resíduos perigosos, excesso de plástico, emissões atmosféricas. Em muitos casos, o problema não esteve na ciência em si, mas na forma como o conhecimento foi utilizado, quase sempre numa lógica de crescimento rápido, produção constante e pouca preocupação com as consequências futuras.

E talvez seja precisamente aqui que a discussão se torna mais interessante. A Química, enquanto ciência, não é “boa” nem “má”. O impacto depende da forma como é aplicada e dos interesses que estão por trás dessa aplicação. Mas a forma como a sociedade olha para ela raramente é assim tão equilibrada.

Isso nota-se muito na publicidade recente de supermercados como o Pingo Doce, Lidl ou Continente. Os famosos “És”, os ingredientes com nomes difíceis, os produtos “sem químicos”. Tudo é apresentado de forma a despertar uma certa desconfiança. E, no entanto, poucas vezes se explica realmente o que essas substâncias são ou para que servem. O E290, por exemplo, corresponde simplesmente ao dióxido de carbono.

Parece existir uma necessidade constante de simplificar tudo. Natural é bom. Artificial é mau. Mas basta pensar um bocadinho para perceber que a realidade não funciona assim. Existem substâncias naturais extremamente tóxicas e compostos produzidos em laboratório que salvam milhões de vidas todos os dias.

Na construção civil isso também acontece. Já me aconteceu ver pessoas preocupadas com determinado produto químico utilizado em obra, mas completamente indiferentes ao desperdício de materiais ou à má gestão de resíduos no mesmo espaço. E isso acaba por mostrar como muitas vezes o problema está mais na perceção do que no verdadeiro impacto ambiental.

Outra coisa que me chama a atenção é a forma como a Química só se torna visível quando alguma coisa corre mal. Quando existe poluição, um acidente industrial ou uma substância perigosa, fala-se imediatamente da “química”. Mas quando a água chega tratada às nossas casas, quando um medicamento funciona ou quando um edifício consegue consumir menos energia graças a novos materiais, raramente alguém pensa nisso.

No fundo, parece-me que existe uma relação contraditória com esta ciência. Dependemos dela constantemente, mas ao mesmo tempo desconfiamos dela quase por instinto. Talvez porque seja mais fácil criar medo do que explicar processos complexos.

Para mim, a Química acaba por ser exatamente isso: uma ferramenta extremamente poderosa, capaz de melhorar profundamente a qualidade de vida, mas também de gerar impactos graves quando é usada sem responsabilidade. E talvez o verdadeiro desafio esteja aí. Não em afastarmo-nos da Química, porque isso seria impossível, mas em perceber melhor o papel que ela tem na sociedade e na forma como escolhemos utilizá-la.

No fundo, talvez a Química não assuste assim tanto. O que realmente assusta é perceber até que ponto dependemos dela todos os dias sem a compreendermos verdadeiramente.

Sem comentários:

Enviar um comentário