A Química vista por Zélia Mota e Costa


 A pergunta pelas vantagens e desvantagens da química revela uma reação às consequências de algumas aplicações que têm vindo a ser dadas à química.  Esta é, no entanto, uma pergunta que merece ser pensada, de forma a evitar atribuições erradas.

Enquanto ciência que estuda a natureza, as propriedades e as transformações da matéria e das substâncias, a química não tem desvantagens! Ela oferece conhecimento e nenhum conhecimento tem desvantagens. Dizer que a Química tem desvantagens equivale a dizer que a matemática tem desvantagens.

A química desenvolveu-se como ciência suportada por um método científico de estudo e experimentação, e um vocabulário próprio com o qual contactámos ao longo do ensino formal, mas também no dia-a-dia através dos media.

Se pensarmos na evolução da culinária, desde o início, o homem, desprovido ainda dos conhecimentos científicos da química, foi transformando, através do fogo, da cura e da combinação, os alimentos num processo que hoje conhecemos, vulgarmente, como “cozinhar”.  A invenção da culinária deve-se à capacidade criativa, sustentada numa pré-compreensão do mundo.

Atualmente, introduzimos no quotidiano termos que implicam o conhecimento científico da composição química dos alimentos e das suas reações culinárias, sendo a expressão máxima dessa apropriação a cozinha molecular.

Quando falamos de comida, falamos de proteínas, vitaminas, hidratos de carbono, fibra, minerais. Falamos de caramelização, fermentação, emulsificação. Falamos da conservação adequada de alimentos, da higienização dos mesmos, assim como dos cuidados a observar na utilização dos utensílios e superfícies, e da correta lavagem das mãos, como cuidados necessários à segurança alimentar. Procuramos informação acerca dos melhores alimentos para a nossa saúde e dos alimentos a evitar, e tudo isto revela uma relação com a química implícita, intricada nas nossas vidas, mas nem sempre devidamente informada e por vezes carregada de prejuízos.

 Esses prejuízos dizem respeito ao outro lado da química, o lado criativo que permitiu à ciência a criação sintética de substâncias e o desenvolvimento de processos químicos que estão na base do que podemos designar como vida moderna. Os exemplos dessa aplicação atravessam todas as esferas das nossas vidas: habitação, transportes, comunicações, saúde, agricultura, pesca, sistemas de tratamentos de águas residuais, análise e tratamento da água potável, e têm contribuído para o aumento da esperança média de vida, o tratamento e erradicação de doenças, construções mais seguras e confortáveis e redução do tempo necessário para nos deslocarmos entre destinos.

 Se devemos à química as conquistas necessárias ao nosso modo de vida moderno, é inegável reconhecer uma crescente atribuição de impactos negativos no ambiente e na saúde humana à ação da química, a par de alguma desconfiança em relação ao produtos químicos “artificiais” percebidos como malignos, por oposição aos naturais vistos como benignos.

 A questão das vantagens e desvantagens da química refere-se à sua aplicação e constitui-se como problema filosófico. Este problema é, por um lado, deontológico, que se prende com a necessidade do estudo, ponderação e avaliação dos potenciais efeitos adversos associados à utilização de produtos e aplicação de soluções resultantes da química, muitas vezes só reveladas com o tempo, e, por outro lado, revela um aspeto ontológico, remetendo-nos para a relação que o ser humano foi desenvolvendo com a química e a partir desta.

 Ontologicamente, a relação que desenvolvemos com a química enquanto ciência criativa reflete o modo de relação que desenvolvemos para com o mundo, para com os outros seres e para connosco. Um mundo que acreditou no progresso, no crescimento económico, no liberalismo e nos ideais de vida consumistas. Um mundo que ignorou as consequências das suas decisões e escolhas, tais como a degradação do meio ambiente, a desigualdade no acesso às vantagens da química, pobreza, e que persegue a ideia de prosperidade, mesmo que essa prosperidade exclua e explore a maioria da população do planeta. Um mundo antropocêntrico, que esqueceu a sua relação mais originária com o planeta, e com os outros seres.

 Precisamos repensar a nossa relação com o mundo, abdicar da pretensão de ser os mestres e senhores da Terra e reconhecer-nos como seres em coexistência e interdependência com outros seres e com o planeta.

Precisamos assumir a responsabilidade sobre as decisões que tomámos na aplicação do conhecimento e da criatividade da química.

É urgente a pergunta: Qual é a história que queremos escrever para nós, para as futuras gerações, para os outros seres e para o Planeta?

Independentemente do caminho que tomarmos, podemos prever que iremos continuar a usufruir dos conhecimento e das criações da química. Compete-nos assumir a nossa responsabilidade pela sua aplicação.

Zélia Mota e Costa, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial, aluna do Mestrado de Filosofia Prática - Política, Cidadania e Ambiente, da Universidade de Évora.

Sem comentários:

Enviar um comentário