A Química vista por Carolina Serna

 


É certo que quando falamos de química não nos costumamos focar nos aspetos positivos. Além disso, nem sempre temos a noção de que os nossos corpos e absolutamente tudo o que nos rodeia são químicos (átomos, elementos, compostos) como a água e o ar, que são essenciais para a existência de vida.

Mesmo quando ouvimos a palavra química, pensamos muitas vezes em profissionais que trabalham nesta área, ou lembramo-nos de eventos catastróficos relacionados com derrames de petróleo, poluição do ar e outros.

No entanto, a conotação da química nem sempre tem de ser negativa. Sendo esta uma ciência transversal (estreitamente relacionada com muitas outras ciências e indústrias, como a farmacêutica), poderia ser considerada como "a ciência que resolve os problemas do nosso tempo". Basta pensar em áreas como a saúde e a segurança alimentar para imaginar o quão vasto e positivo pode ser o impacto da química.

É claro que, historicamente, a química tem desempenhado um papel activo na poluição do ar e nas alterações climáticas através da emissão de vários gases com efeito de estufa, e que este facto já impactou negativamente vários milhões de pessoas. Também, tem sido  fundamental na poluição dos mares e oceanos, e dos solos através da descarga de substâncias derivadas de fertilizantes e pesticidas.

Mas o papel da química vai muito para além deste tipo de consequências. Vista na perspetiva dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), esta ciência é responsável por determinar como os poluentes afetam o ambiente, analisar os impactos nocivos dos produtos químicos na saúde humana, investigar como funciona o efeito de estufa e propor formas de combater a destruição da camada de ozono.

A química é ainda responsável pelo diagnóstico de doenças, pela definição de novos processos produtivos, pela criação de medicamentos e pela melhoria dos já existentes para o tratamento de doenças como a malária, que afeta milhares de pessoas anualmente, principalmente em regiões tropicais e subtropicais. Esta ciência também trabalha ativamente para resolver e prevenir casos de envenenamento por chumbo e mercúrio, não só em humanos, mas também na natureza.

Em benefício da nossa saúde, esta ciência permite a criação de superfícies antimicrobianas que promovem um manuseamento dos alimentos mais higiénico e seguro. Utiliza também a modificação genética para produzir alimentos mais adequados ao consumo humano, como as batatas com baixos níveis de asparagina. Participa ainda na produção de embalagens comestíveis para alimentos, o que reduz a poluição plástica e a necessidade de reciclagem.

Por isso, considero importante destacar o papel que a química (enquanto química verde) desempenha no desenvolvimento de tecnologias e materiais sustentáveis, e no design de processos e produtos amigos do ambiente.

Outras três contribuições da química que considero fundamentais estão relacionadas com a produção e armazenamento de energia, através da utilização de baterias que convertem o hidrogénio e o oxigénio em energia elétrica; obtenção de novos materiais para o fabrico de painéis solares de alto desempenho; e a produção de biocombustíveis. Sobre este último, é de salientar que, para que o seu impacto no ambiente seja positivo, a sua produção deve ser sustentável e beneficiar a comunidade.

Ora, se nos lembrarmos de palavras como água, medicamentos, vitaminas, minerais, hemoglobina, ATP, ferro, todas elas presentes no nosso dia-a-dia, podemos chegar à seguinte conclusão: a vida, sem química, não seria possível.

Por fim, gostaria de referir quatro dos doze princípios da química verde: os materiais renováveis ​​serão sempre uma prioridade; conceber produtos para serem biodegradáveis; preservar a eficácia deve ser compatível com a redução ou eliminação da toxicidade; e evitar o desperdício será sempre melhor do que ter de o tratar ou descartar mais tarde.

Acredito que se estes princípios forem realmente aplicados, seremos capazes de ver como a química pode trabalhar para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo, claro, a importância desta ciência em áreas prioritárias como a saúde e a segurança alimentar.

Carolina Serna, Bióloga, aluna da Pós-Graduação em Ambiente, Sustentabilidade e Educação da Universidade de Évora.

A Química vista por Daniela Reis


A Química é uma ciência fundamental para a sociedade moderna, está presente em praticamente todas as ciências e em todos os aspetos da nossa vida, sendo descrita por Mendes (2011) como “omnipresente em tudo o que nos  rodeia” (p.1). Pessoalmente, não tinha noção do quão presente a química é na nossa vida e em como ela é necessária para tudo e mais que desvantajosa é muito benéfica em vários aspetos. Porém, como qualquer recurso poderoso, a química pode ser fatal, especialmente quando é utilizada de forma irresponsável.

A química é frequentemente associada aos impactos negativos por muitos de nós. Está associada à poluição, aos desastres ambientais, à contaminação das águas, etc, ou seja, situações que contribuem para a sua má reputação. No entanto, percebi que esta visão é muito negligenciada, pois como afirma o Prof. João Paulo Leal “a química não está isenta de ter tido algumas páginas negras na sua história, mas (...) é uma fonte de soluções para os problemas” na Palestra “Química e Sociedade: Ligações Perigosas?”. O papel da química é fundamental para a resolução dos desafios globais, desde a saúde à sustentabilidade. Por um lado, os avanços na química permitiram a criação de substâncias prejudiciais, mas por outro, foi graças à química que surgiram as soluções para reduzir os impactos destes. 

As desvantagens da química talvez sejam «a ponta do iceberg», apenas a parte mais visível, deixando as vantagens submersas. Os resíduos de todo o tipo espalhados no ambiente,  utilização de aditivos nos alimentos e  pesticidas, a contaminação ambiental, a libertação de gases poluentes no ar e na água, tudo isto se traduz em graves impactos no aumento do efeito estufa, contaminação dos ecossistemas, a perda de biodiversidade… Consequências da química. Contudo, concordo que esta má imagem da química deve-se ao resultado da sua má utilização ou da  “pouca educação dos cidadãos” (p.2), como afirma Corrêa (2011). A produção e o uso indevido de substâncias químicas podem representar riscos para a saúde humana. Certas substâncias químicas utilizadas na indústria e na agricultura podem ser prejudiciais se forem aplicadas incorretamente. Outro ponto muito negativo é, por exemplo, o uso da química para fins destrutivos, como a produção de armas para alimentar as guerras e esta, infelizmente, tem sido um dos grandes problemas da atualidade da má utilização desta ciência. 

O problema não está propriamente na química, mas sim no seu modo de utilização: “ligação perigosa é não ligar á química e não perceber o papel central da química na vida” - Prof. João Paulo Leal. A química tanto é destrutiva como benéfica, dependendo da sua aplicação. Por isso, a solução não é negligenciá-la e sim promover o seu desenvolvimento responsável e sustentável.

Quanto às vantagens, muitas! No setor da saúde, a química revolucionou a medicina com o desenvolvimento de medicamentos, como na criação de materiais biomédicos mais inovadores. A sua presença também na indústria alimentar que contribui para a conservação dos alimentos por mais tempo. Os fertilizantes e pesticidas para a agricultura para aumentar a produtividade e a segurança alimentar.

O mesmo acontece no setor ambiental: nos processos da reciclagem, no tratamento de águas residuais, na melhoria da qualidade da água que bebemos, etc. Isto contribui para a preservação dos recursos naturais, bem como o desenvolvimento de tecnologias para reduzir o impacto ambiental das ações humanas. No que diz respeito à energia: o avanço de tecnologias mais limpas e eficientes, como desenvolvimento de baterias, luzes LED, etc. Ou seja, a química está na linha da frente de quase tudo aquilo que nos rodeia com inúmeras vantagens. Como sublinha Mendes (2011) “a Química e o mundo que nos rodeia são indissociáveis. A atividade  tecnológica química também envolve riscos como os problemas ambientais que todos  conhecemos. Mas não deixa de ser verdade que também é a Química que os ajudará a  resolver por implementação de processos químicos e utilização de matérias‐primas mais sustentáveis” (p.3). 

Depois de obter esta visão mais alargada, admito que a Química é uma das ciências mais influentes e transformadoras, as suas vantagens são inegáveis. No entanto, os impactos negativos da sua má utilização tem realmente consequências graves. As boas práticas ambientais também são boas práticas na química, cabe à humanidade e à comunidade científica garantir que a química seja usada de forma responsável, aumentando os seus benefícios e diminuindo os seus riscos. 

Daniela Reis, Técnica de Educação Ambiental, aluna da Pós-Graduação em Ambiente, Sustentabilidade e Educação da Universidade de Évora.

A Química vista por Carolina Silva Santos

 

 


Estando a frequentar o mestrado de “Filosofia Prática: Política, Cidadania e Ambiente” e não tendo contacto direto com os ramos ligados ao estudo da química nos últimos anos, fiquei realmente assustada ao ouvir a palavra, só conseguia pensar em elementos, em substâncias, em processos, em reações, em propriedades, em instrumentos, em técnicas, em estados da matéria, em disciplinas relacionadas com química e tudo o que a mesma pode envolver, contudo, o conceito é algo muito mais abrangente do que aquilo que se pode imaginar.

Terminada a palestra “Química e Sociedade: ligações perigosas?”, pensei logo que não há necessidade dessas preocupações, uma vez que, para estar em contacto com a química, não é necessário estar num laboratório, basta apenas existir.

Não podemos negar que todo o progresso da química é bastante impactante e tem vindo a desenvolver-se de forma repentina, o que não significa que a rapidez nestes avanços seja sempre benéfica.

A química é extremamente fundamental e está sempre presente, uma vez que a mesma possibilita avanços tecnológicos, melhorias na qualidade de vida e no desenvolvimento económico. No entanto, também pode apresentar riscos e alguns desafios que devem ser geridos com responsabilidade. É essencial analisar as vantagens e desvantagens da química para compreender melhor os seus impactos.

Uma das principais contribuições da química está na área da saúde e da medicina, com ela, foi possível criar medicamentos, vacinas e tratamentos que combatem diversas doenças, aumentando a expectativa e a qualidade de vida.

Na agricultura, a química também desempenha um papel crucial. Fertilizantes e pesticidas são utilizados para aumentar a produtividade e proteger as plantações contra pragas e doenças.

Na indústria e na tecnologia, podemos pensar na criação de novos materiais, que impulsionam a inovação, assim como no que diz respeito à energia, o desenvolvimento de combustíveis, baterias e fontes alternativas de energia são impactantes.

Apesar dos seus benefícios, a química não é, nem trás apenas perfeição, há desvantagens que precisam ser cuidadosamente pensadas e melhoradas. Um dos principais problemas está relacionado com a poluição ambiental. A produção descontrolada de produtos químicos pode contaminar os solos, os rios e a atmosfera, causando impactos negativos não só nos ecossistemas, como também na saúde humana.

As substâncias químicas perigosas, como metais pesados, podem representar riscos tanto para os trabalhadores das indústrias como para a população num modo geral.

A química também pode ser utilizada de forma indevida, como é no caso da produção de armas e drogas ilícitas. Substâncias químicas tóxicas podem ser utilizadas em conflitos militares, causando danos irreversíveis a populações civis e ao meio ambiente.

Outro ponto negativo é a exploração de recursos naturais, a extração de minerais e petróleo, por exemplo, podem levar à perda de biodiversidade e à emissão de gases, agravando as alterações climáticas.

Sendo assim, a química é uma ciência essencial, e é claro que tudo é química e nós próprios somos química, no entanto, os impactos negativos não podem ser ignorados. Para garantir que os benefícios sejam cada vez maiores e os riscos menores, é fundamental investir no desenvolvimento de tecnologias mais sustentáveis, controlar de forma mais rigorosa o uso de substâncias químicas e promover a consciencialização sobre como se pode descartar de forma adequada os resíduos. Dessa forma, será possível aproveitar os avanços da química sem colocar em causa o meio ambiente e a saúde das gerações futuras.

 

 

Carolina Silva Santos, licenciada em Estudos de Filosofia e de Cultura Contemporânea pela Universidade de Évora e estudante do Mestrado de Filosofia Prática- Política, Cidadania e Ambiente na Universidade de Évora.

A Química vista por Zélia Mota e Costa


 A pergunta pelas vantagens e desvantagens da química revela uma reação às consequências de algumas aplicações que têm vindo a ser dadas à química.  Esta é, no entanto, uma pergunta que merece ser pensada, de forma a evitar atribuições erradas.

Enquanto ciência que estuda a natureza, as propriedades e as transformações da matéria e das substâncias, a química não tem desvantagens! Ela oferece conhecimento e nenhum conhecimento tem desvantagens. Dizer que a Química tem desvantagens equivale a dizer que a matemática tem desvantagens.

A química desenvolveu-se como ciência suportada por um método científico de estudo e experimentação, e um vocabulário próprio com o qual contactámos ao longo do ensino formal, mas também no dia-a-dia através dos media.

Se pensarmos na evolução da culinária, desde o início, o homem, desprovido ainda dos conhecimentos científicos da química, foi transformando, através do fogo, da cura e da combinação, os alimentos num processo que hoje conhecemos, vulgarmente, como “cozinhar”.  A invenção da culinária deve-se à capacidade criativa, sustentada numa pré-compreensão do mundo.

Atualmente, introduzimos no quotidiano termos que implicam o conhecimento científico da composição química dos alimentos e das suas reações culinárias, sendo a expressão máxima dessa apropriação a cozinha molecular.

Quando falamos de comida, falamos de proteínas, vitaminas, hidratos de carbono, fibra, minerais. Falamos de caramelização, fermentação, emulsificação. Falamos da conservação adequada de alimentos, da higienização dos mesmos, assim como dos cuidados a observar na utilização dos utensílios e superfícies, e da correta lavagem das mãos, como cuidados necessários à segurança alimentar. Procuramos informação acerca dos melhores alimentos para a nossa saúde e dos alimentos a evitar, e tudo isto revela uma relação com a química implícita, intricada nas nossas vidas, mas nem sempre devidamente informada e por vezes carregada de prejuízos.

 Esses prejuízos dizem respeito ao outro lado da química, o lado criativo que permitiu à ciência a criação sintética de substâncias e o desenvolvimento de processos químicos que estão na base do que podemos designar como vida moderna. Os exemplos dessa aplicação atravessam todas as esferas das nossas vidas: habitação, transportes, comunicações, saúde, agricultura, pesca, sistemas de tratamentos de águas residuais, análise e tratamento da água potável, e têm contribuído para o aumento da esperança média de vida, o tratamento e erradicação de doenças, construções mais seguras e confortáveis e redução do tempo necessário para nos deslocarmos entre destinos.

 Se devemos à química as conquistas necessárias ao nosso modo de vida moderno, é inegável reconhecer uma crescente atribuição de impactos negativos no ambiente e na saúde humana à ação da química, a par de alguma desconfiança em relação ao produtos químicos “artificiais” percebidos como malignos, por oposição aos naturais vistos como benignos.

 A questão das vantagens e desvantagens da química refere-se à sua aplicação e constitui-se como problema filosófico. Este problema é, por um lado, deontológico, que se prende com a necessidade do estudo, ponderação e avaliação dos potenciais efeitos adversos associados à utilização de produtos e aplicação de soluções resultantes da química, muitas vezes só reveladas com o tempo, e, por outro lado, revela um aspeto ontológico, remetendo-nos para a relação que o ser humano foi desenvolvendo com a química e a partir desta.

 Ontologicamente, a relação que desenvolvemos com a química enquanto ciência criativa reflete o modo de relação que desenvolvemos para com o mundo, para com os outros seres e para connosco. Um mundo que acreditou no progresso, no crescimento económico, no liberalismo e nos ideais de vida consumistas. Um mundo que ignorou as consequências das suas decisões e escolhas, tais como a degradação do meio ambiente, a desigualdade no acesso às vantagens da química, pobreza, e que persegue a ideia de prosperidade, mesmo que essa prosperidade exclua e explore a maioria da população do planeta. Um mundo antropocêntrico, que esqueceu a sua relação mais originária com o planeta, e com os outros seres.

 Precisamos repensar a nossa relação com o mundo, abdicar da pretensão de ser os mestres e senhores da Terra e reconhecer-nos como seres em coexistência e interdependência com outros seres e com o planeta.

Precisamos assumir a responsabilidade sobre as decisões que tomámos na aplicação do conhecimento e da criatividade da química.

É urgente a pergunta: Qual é a história que queremos escrever para nós, para as futuras gerações, para os outros seres e para o Planeta?

Independentemente do caminho que tomarmos, podemos prever que iremos continuar a usufruir dos conhecimento e das criações da química. Compete-nos assumir a nossa responsabilidade pela sua aplicação.

Zélia Mota e Costa, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial, aluna do Mestrado de Filosofia Prática - Política, Cidadania e Ambiente, da Universidade de Évora.