É certo que quando falamos de química não nos costumamos focar nos aspetos positivos. Além disso, nem sempre temos a noção de que os nossos corpos e absolutamente tudo o que nos rodeia são químicos (átomos, elementos, compostos) como a água e o ar, que são essenciais para a existência de vida.
Mesmo quando ouvimos a palavra química, pensamos muitas vezes em profissionais que trabalham nesta área, ou lembramo-nos de eventos catastróficos relacionados com derrames de petróleo, poluição do ar e outros.
No entanto, a conotação da química nem sempre tem de ser negativa. Sendo esta uma ciência transversal (estreitamente relacionada com muitas outras ciências e indústrias, como a farmacêutica), poderia ser considerada como "a ciência que resolve os problemas do nosso tempo". Basta pensar em áreas como a saúde e a segurança alimentar para imaginar o quão vasto e positivo pode ser o impacto da química.
É claro que, historicamente, a química tem desempenhado um papel activo na poluição do ar e nas alterações climáticas através da emissão de vários gases com efeito de estufa, e que este facto já impactou negativamente vários milhões de pessoas. Também, tem sido fundamental na poluição dos mares e oceanos, e dos solos através da descarga de substâncias derivadas de fertilizantes e pesticidas.
Mas o papel da química vai muito para além deste tipo de consequências. Vista na perspetiva dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), esta ciência é responsável por determinar como os poluentes afetam o ambiente, analisar os impactos nocivos dos produtos químicos na saúde humana, investigar como funciona o efeito de estufa e propor formas de combater a destruição da camada de ozono.
A química é ainda responsável pelo diagnóstico de doenças, pela definição de novos processos produtivos, pela criação de medicamentos e pela melhoria dos já existentes para o tratamento de doenças como a malária, que afeta milhares de pessoas anualmente, principalmente em regiões tropicais e subtropicais. Esta ciência também trabalha ativamente para resolver e prevenir casos de envenenamento por chumbo e mercúrio, não só em humanos, mas também na natureza.
Em benefício da nossa saúde, esta ciência permite a criação de superfícies antimicrobianas que promovem um manuseamento dos alimentos mais higiénico e seguro. Utiliza também a modificação genética para produzir alimentos mais adequados ao consumo humano, como as batatas com baixos níveis de asparagina. Participa ainda na produção de embalagens comestíveis para alimentos, o que reduz a poluição plástica e a necessidade de reciclagem.
Por isso, considero importante destacar o papel que a química (enquanto química verde) desempenha no desenvolvimento de tecnologias e materiais sustentáveis, e no design de processos e produtos amigos do ambiente.
Outras três contribuições da química que considero fundamentais estão relacionadas com a produção e armazenamento de energia, através da utilização de baterias que convertem o hidrogénio e o oxigénio em energia elétrica; obtenção de novos materiais para o fabrico de painéis solares de alto desempenho; e a produção de biocombustíveis. Sobre este último, é de salientar que, para que o seu impacto no ambiente seja positivo, a sua produção deve ser sustentável e beneficiar a comunidade.
Ora, se nos lembrarmos de palavras como água, medicamentos, vitaminas, minerais, hemoglobina, ATP, ferro, todas elas presentes no nosso dia-a-dia, podemos chegar à seguinte conclusão: a vida, sem química, não seria possível.
Por fim, gostaria de referir quatro dos doze princípios da química verde: os materiais renováveis serão sempre uma prioridade; conceber produtos para serem biodegradáveis; preservar a eficácia deve ser compatível com a redução ou eliminação da toxicidade; e evitar o desperdício será sempre melhor do que ter de o tratar ou descartar mais tarde.
Acredito que se estes princípios forem realmente aplicados, seremos capazes de ver como a química pode trabalhar para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo, claro, a importância desta ciência em áreas prioritárias como a saúde e a segurança alimentar.
Carolina Serna, Bióloga, aluna da Pós-Graduação em Ambiente, Sustentabilidade e Educação da Universidade de Évora.